Pendragão

O que mais interessa é essa figura de líder fulgurante na escalada ao poder, ambicioso, atrativo, sedutor e genial, implacável com os inimigos e que sabe domenhar os aliados com dura mão, génio na batalha e herói na luta. Mas que não sabe ser na vitória.

Written by: Ernesto Vázquez

Published on: 14/06/2018

Uther, named Pendragon, a tittle given to an elective sovereign, paramount over the many kings of Britain.

Bulfinch’s Mythology: Arthur.

Grande de força e de muito poder, o magnífico, o temível e admirável senhor da batalha, derrocou cem torres, esgorjou cem defensores delas, talhou cem cabeças de reis e cem capas foram postas para os seus pés calcarem.

Assim foi Uthr Bendrago, Pandragon, o grande dragão, o chefe de chieftains. Assombrou o mundo com a esteira do seu poder e sobranceou, com a sua possante voz e liderança, todos os seus pares. Dentre eles elevou-se e sobre a mesma pedra dos velhos reis foi corono, primus inter pares, príncipe entre príncipes, rei de reis.

Perdeu-se quando teve a vitória, o poder na mão e o governo. Levado das suas paixões. E com ele perdeu-se a paz, e a justiça, e o reino.

Sem dúvida Uthr é uma personagem-símbolo, das tamanhas no universo céltico, por direito próprio e pela sua funcionalidade no esquema da tradição principal. Figura poliédrica ou composta por várias camadas e personagens, por causa da evolução da tradição. Das primeiras gestas e restos de poemas conservados até à fixação canónica como antecessor de Artur, seguindo a versão de Geoffrey de Monmouth na sua admirável Historia Regum Britanniae ou De gestis Britonum (a História dos reis da Bretanha, ou a Gesta dos Bretões).

Como todas as personagens do Ciclo e Matéria da Bretanha, ou dos ciclos, por causa da sua revisão e interpretação necessária na procura das diversas legitimações e projetos políticos dos Mecenas e Cortes em que se reescrevem, a personagem foi variando no decurso do tempo: passando de ser um cavaleiro principal (talvez na origem esse mesmo Duque Gorlois em que se transfigura por arte de encantamento) famoso pela sua força, destreza, liderança e audácia na batalha e transfigurado na paz pelas paixões e ambições.

De homem de Artur, irmão do “derradeiro romano” Ambrosius Aurelianus (Aurelius Ambrosius), chefe de guerra e provavelmente rei antepassado, passou a ser na idealização do génio galês, o pai de Artur. Legitimidades em jogo e magia, com a usurpação e justificação da violentação de Igraine, senhora de Tintagel e a tomada por engenho e magia do inexpugnável Castelo.

Pouco importa se morreu como o seu irmão e antecessor pelo veneno na água do poço real servida pelos inimigos, se foi debilitando-se rapidamente por causa dos seus excessos e paixões, ou se morreu por imprudência em batalha.

Não importa se verdadeiramente foi rei antes de Artur. Se morreu em combate ou emponçonhado. Até nem importa se foi verdadeiramente o pai de Artur ou uma simples legitimação fabulosa (tão útil e grata a tantas e fundamentais dinastias de bastardos roturistas). O interessante é que a figura vai perdendo força e apoio, esmorecendo, e com ele o projeto novo e o reino. Celebrado e desejado por condes, justiceiro para o povo, termina e quase se esfarela na memória. Após ele, pois: o caos, a guerra, o trunfo das forças mais brutas e a terra mais uma vez devastada.

O que mais interessa é essa figura de líder fulgurante na escalada ao poder, ambicioso, atrativo, sedutor e genial, implacável com os inimigos e que sabe domenhar os aliados com dura mão, génio na batalha e herói na luta. Mas que não sabe ser na vitória. Incapaz de entender as instituições, de gerir o reino e o governo, que não sabe ser patriarca, alicerce, fundador da estirpe.

Ele, o grande, o temível, o audaz. O enfant terrible. Congelador de presentes, sem semente firme de futuro. Quantas das nossas gentes têm esta síndroma do Pendragão.

2 comentarios en “Pendragão”

  1. “Ele, o grande, o temível, o audaz. O enfant terrible. Congelador de presentes, sem semente firme de futuro. Quantas das nossas gentes têm esta síndroma do Pendragão”

    Isso que se pintou aí é verdadeiramente um galego, que está bem certificado por Ernesto como tabelião do nosso nacional cartório que é.

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